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É difícil para mim expressar toda a amplitude de sentimentos que a imagem do Centro de Acolhimento Temporário Tercena me invoca.
O contraste da riqueza das pessoas que ali investem todo o seu tempo e energia com a precariedade dos recursos que dispõem, invariavelmente me comove e me faz pensar como os que são grandes, conseguem fazer tanto com tão pouco.
A minha entrada naquela casa rosa velho, protegida por um portão verde já com a tinta a estalar, mudou a minha vida para sempre.
Visitei pela primeira vez o Centro por sugestão de uma amiga que já era amiga do Centro. Fui recebida sem reservas nem ânsias. Com a simplicidade de quem sabe pedir ajuda e, por isso, mostra claramente que não lhe interessa uma ajuda qualquer. Os seus grandes objectivos prendem-se com o destino de cada uma das crianças que têm à sua guarda. As crianças ali não são números, da mesma forma - como me mostraram mais tarde – que cada quarto, cada cama, foi decorado e preparado para ser o espaço de cada um, e não mais uma cama para servir a quem aparecer.
Fui ao Centro com a intenção de ajudar, de contribuir de alguma forma. Jamais me passou pela cabeça qual o prémio que iria receber com esta atitude. O que começou por ser uma ajuda a três crianças que não tinham com quem passar ao fim-de-semana, rapidamente se transformou numa forte relação de amizade e, aqueles três irmãos sem destino, depressa me fizeram sentir que os nossos destinos estavam juntos: tornaram-se meus filhos.
Durante um ano, fomo-nos conhecendo, partilhando fins de semana e férias. Durante um ano, muitas foram as noites que não dormi a pensar se estariam bem, se apanhariam chuva no caminho para a escola.
Embora o Centro faça de tudo para que as crianças se sintam protegidas e apoiadas, não se consegue substituir a uma família.
Ao fim deste ano, o amor falou mais alto que o medo e propus-me para os adoptar. Mais uma vez, o Centro e todas as instituições estatais envolvidas foram incansáveis. Ao fim de oito meses estava a receber o despacho do tribunal de Cascais concedendo-me a adopção plena das crianças.
A nossa vida mudou para sempre. Já passaram dois anos e, em cada dia agradeço a felicidade que sentimos por estar juntos. O tempo passa muito rapidamente, as crianças crescem e cada vez é mais ténue na sua lembrança as memórias dos dias menos felizes, vividos antes de serem acolhidos pelo Centro.
No entanto, na nossa memória, ficará para sempre aquela casa cor-de-rosa e os rostos cheios de ternura que tiveram a sabedoria e a generosidade de nos ajudar a construir a nossa família!
Bem hajam!
R.M.
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